Um ano na Alemanha – Lições de vida

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Depois de passar um ano fora da “nossa zona de conforto” passamos a encarar a vida de uma forma diferente. Não é fácil passar um ano longe da família e dos amigos, ter que fazer novas amizades e se adaptar a comportamentos de uma sociedade totalmente diferente da nossa.

Um ano de Alemanha foi um intercambio que eu sempre quis, desde a época do colegial. Acho que a oportunidade do Ciências sem Fronteiras chegou na hora certa para mim. Eu estava no meio do meu terceiro ano de Engenharia Agronômica, era um momento da minha vida que eu precisava largar tudo o que estava fazendo e passar por uma experiência de vida diferente, que me fizesse parar para pensar no que eu realmente queria para minha vida profissional.  Percebi qual era o meu perfil e que  era necessário eu fazer um mestrado.  Talvez se alguém me perguntasse qual a melhor época do curso para se viajar, eu diria meio do quarto ano, quando acabam as disciplinas obrigatórias.

Alemão não é tão difícil assim como muitos pensam, é preciso se esforçar como em todas as línguas, antes de ir para lá eu aconselho estudar o básico no Brasil. Estando lá, aproveitem o máximo, liguem o rádio, a TV, façam amigos alemães, saiam com eles, mesmo que eles não sejam tão abertos como nós latinos. Quando começam as aulas, é normal ficar o primeiro mês meio perdido, a maior dificuldade foi a falta de vocabulário, por isso, é importante sempre estar com um caderninho no bolso e na hora que ouvir uma palavra diferente logo anotar o significado.

É muito bom viajar, conhecer lugares novos, cultura nova, mas é importante não esquecer de que a real função de estar fora é estudar, por isso não é bom  faltar nas aulas.

Se uma oportunidade assim passar pela vida de vocês, se esforcem e não a percam. Apesar de toda a burocracia, corram atrás. Quando menos esperarem estarão embarcando no avião com um sorriso estampado na cara! Prontos para encarar todos os desafios e dificuldades , e aproveitar muito todos os momentos dessa experiência.

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Barbara Ludwig Navarro (Istrúdeu) – 5˚ ano Eng. Agrônomica

Intercâmbio na Graduação: viver em outro país

Posso afirmar, sem dúvidas, que não há melhor experiência na vida de um estudante do que um intercâmbio, não importa a duração ou o seu destino.

Durante meu período de graduação, tive o privilégio de estudar na Wageningen University and Research, na Holanda, durante um ano, entre 2012 e 2013. E são inúmeros os benefícios e vantagens que essa experiência pode proporcionar.

Começando pela parte acadêmica. É possível conhecer outros sistemas de ensino, aprendizado e trabalho, conviver com alunos, professores e funcionários de inúmeras origens, formações, experiências e hábitos. É possível estudar num ambiente totalmente diferente do que se está acostumado no Brasil, com outra rotina e organização e obter conhecimento de outras áreas e assuntos que não são trabalhados no Brasil, seja por diferenças geográficas, culturais ou enfoques diferentes dos estudados no Brasil.

O senso crítico também muda, para melhor. A nova visão de mundo, mas em especial do próprio país, que é possível obter quando moramos em outro lugar, diferente da nossa terra natal, é um diferencial. Após certo tempo vivendo no exterior, é possível criar e aprimorar a capacidade de opinar a respeito da situação em que o Brasil se encontra em relação ao mundo, o que podemos e devemos fazer para melhorá-lo e no que devemos continuar trabalhando para sermos ainda mais competitivos.

Já no âmbito pessoal, os benefícios são ainda maiores, que fica até complicado citá-los todos em um texto apenas. Viagens, novas culturas, pessoas totalmente diferentes, os mais variados estilos, festas, esportes, amizades para o resto da vida… Enfim, uma infinidade de situações e momentos únicos!

Claro que nem tudo é perfeito também. É possível que ocorram situações, algumas constrangedoras, principalmente por conta de diferenças culturais (porém nada que não se aprenda no dia-a-dia), outras um pouco mais problemáticas, que até, por um certo tempo, podem prejudicar sua estada em um outro país, por exemplo, encontrar um lugar para morar.

Na Europa, e especialmente na Holanda, não existe repúblicas como nós estamos habituados, com várias pessoas morando juntas, dividindo quartos, banheiros… Lá é muito comum apartamentos, sejam eles ligados à universidade ou não, onde cada estudante tem seu próprio quarto, e às vezes, até seu próprio banheiro, e apenas a sala, a cozinha e a lavanderia são compartilhadas.

Isso pode gerar estranhamento e até mesmo tornar-se um pequeno obstáculo para conhecer pessoas novas, no primeiro momento. Porém, com o tempo, nós nos acostumando com o estilo deles (adaptação, essencial em qualquer situação, ainda mais em outro país) e no final, você estará rodeado de novos amigos.

Outro ponto que gostaria de citar são as facilidades e segurança em relação à moradia no exterior. No caso de Wageningen, todos os alunos estrangeiros que vão estudar lá, têm garantia de ter um apartamento para morar, alguns mais caros que outros, diferentes localizações, mas há essa certeza. Entretanto, muitos outros estudantes, em especial da ESALQ, não recebem esse amparo de outras universidades estrangeiras, ora por elas não terem apartamentos suficientes, ora pelo alto preço dos aluguéis, que frequentemente consomem quase ou até mais da metade da bolsa mensal que recebemos.

Logo, os estudantes optam por mudar-se para apartamentos, kitnets, mais baratos. Contudo, o que era para ser uma boa troca, pode acabar virando um grande problema. Soube de alguns relatos de colegas estrangeiros durante o período que morei lá que enfrentaram problemas contratuais, pagaram por serviços que não usavam ou não recebiam. Enfim, provas de que pessoas boas e ruins estão em todos os lugares. Portanto, é preciso atentar-se aos lugares que se procuram e às pessoas com que se tratam desse assunto. Atualmente, existe uma empresa holandesa chamada HousingAnywhere.com, da qual sou representante aqui em Piracicaba, e que auxilia na divulgação e procura de moradias em todo mundo. É uma plataforma para estudantes anunciarem seus quartos, apartamentos, casas, no período em que estejam fora por conta de algum intercâmbio, e assim, outros estudantes, estrangeiros ou não, possam alugar esses imóveis por um período.

A HousingAnywhere.com foi fundada por alunos da Rotterdam School of Management, Erasmus University na Holanda. Esses alunos tiveram problemas para sublocar seus quartos enquanto estavam fora de Rotterdam para um semestre de intercâmbio em Singapura em 2008. Nenhum dos alunos holandeses locais estava interessado em alugar um quarto por apenas 4 meses. Ao mesmo tempo, eles ouviram do Escritório Internacional da universidade que intercambistas internacionais estavam tendo problemas para encontrar acomodação de curta duração em Rotterdam. Assim, a solução era muito simples e eles lançaram a plataforma onde os estudantes podiam encontrar um ao outro.

A plataforma logo se tornou muito popular em Rotterdam e em 2010 outras universidades holandesas começaram a perguntar se elas podiam participar. Em 2011, pela boca-a-boca, universidades de Copenhagen, Stockholm, Barcelona e São Paulo estavam perguntando sobre a HousingAnywhere também. O link para o site e mais informações é http://www.housinganywhere.com.

Enfim, acredito que seja fundamental divulgar essas informações e dividir um pouco da minha experiência com os alunos da ESALQ. Em especial para os colegas que pretendem desenvolver algum trabalho ou projeto fora do Brasil. Essa experiência foi única e inesquecível. Ter a oportunidade de morar em outro país, tão diferente do nosso, conhecer pessoas de inúmeras nacionalidades, estudar numa excelente universidade, viajar para vários lugares incríveis, ser independente, tudo isso, foi excelente. A principal lição foi dar valor a tudo que temos e alcançamos, e os esforços que empregamos para realizar nossos sonhos. Com trabalho, dedicação, paciência e fé, tudo que for bom para a formação e crescimento, seja pessoal ou profissional, cedo ou tarde, acontecerá.

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Guilherme Amorim Franchi (P-ta) 5º ano Engenharia Agronômica

Então você quer fazer mochilão pela Europa?

Treze países, perdi a conta do número de cidades, 1 ano e meio fora de casa.
Eu estou vivendo o sonho de qualquer “20-e-poucos-anos”, vivendo e viajando pela Europa.
É por pouco tempo, eu sei. Então melhor fazer valer a pena.
Aqui vai uma lista que eu gostaria que alguém tivesse me falado antes de qualquer uma das minhas viagens:
 
            1.Boas maneiras levam você a qualquer lugar. Não é apenas uma dica da sua mãe, é verdade, eu juro. Um simples “por favor” e “obrigado” podem te levar a poder colocar a mala mais cedo no hostel pra dar uma volta pela cidade, podem te garantir um pouco a mais no café da manhã, entrada grátis numa sessão de cinema que você nunca imaginava que iria, ou simplesmente um amigo. Exercite sua internacionalidade, e dependendo do caso solte um “please”, ou um “sivuplê” (s’il vous plaît), um “grazie (mille)”, um “merci”, um “per favore”. É legal aprender a ser gentil em outras línguas também. As pessoas vão simpatizar com você mais rápido. Principalmente os franceses.
 
            2. Pode negar o quanto você quiser. Pode se fazer de “bonzão”. Mas a famosa Hierarquia de Maslow existe. Você pode estar no melhor lugar do mundo, no castelo mais doido do leste europeu, no lago mais lindo da Suiça. Mas as três necessidade básicas vão estar ali presentes: comer, ir ao banheiro e ter um lugar quente pra dormir (principalmente se você viaja no inverno!).
 
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“comida” é uma palavra ampla na maioria dos casos…
            3. Apesar do tópico anterior, devo dizer que suas definições de higiene ao longo do seu mochilão vão se tornar bem mais flexíveis do que você imagina, e geralmente serão relacionadas às suas finanças no momento. Dormir no chão numa estação de trem, usar a mesma calça por 2 semanas, improvisar uma camiseta usada como toalha…são algumas das milhões de coisas novas que você vai acabar fazendo.
 
            4. Não se preocupe de parecer turista. Aquela foto pode ser uma oportunidade única na sua vida. Não fique se escondendo. Deite no chão, coloque a bunda pra cima, e tire a foto do jeitinho que sua mente  e seu coração desejam. Pense que pode ser que você nunca mais volte àquele mesmo lugar. E tenha certeza, que mesmo que você voltar, sua visão de vida será outra. Um momento perdido, é um momento perdido.
 
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Tirar foto de comida também é coisa de turista. Todo mundo no restaurante vai te encarar.  MAS, com licença, estamos falando de café turco!
 
            5. Se você consegue sobreviver a uma semana num quarto de hostel com mais 25 pessoas, completamente desconhecidas, algumas expressando seu amor corporal perto demais do seu ouvido…querido leitor, você consegue sobreviver a quase tudo nessa vida.
 
            6. Interaja!!! Não estou dizendo pra você expressar seu amor junto com o pessoal do número 5, mas converse! Saia do quarto! Desligue o laptop! Arrume uns conselhos de viagem, saiba onde as pessoas foram, o que elas acharam. Isso pode te livrar de enrascadas. E te render novos amigos!
 
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            7. Não mate seu companheiro de viagem. Sim, eu sei que depois de um mês vivendo como um nômade, e vendo essa pessoa 24 horas por dia, esse desejo virá. Mas lembre-se porque você convidou essa pessoa pra viajar com você. É seu amigo! Solta essa faca! Agora!
 
            8. Esquece o computador. Se quiser parar pra postar no seu blog, ou facebook, ou dizer olá pra quem ficou, tudo bem. Mas não desperdice um dia de viagem olhando pra uma tela de computador.
 
            9. Seja corajoso e vá fazer as coisas que aparecem. Mesmo que você esteja com medo, ou desanimado. Mesmo que esteja chovendo. Mesmo que parte da sua viagem não seja como planejado, tenha coragem de não ser um bebê chorão, e pense que…”cê tá na europa, porra!”
 
            10. Se prepare: quando você voltar, você só vai querer falar de Europa por uns tempos. É normal. Seus amigos vão ter inveja. E com razão, seu sortudo! 
 
 
 

Intercâmbio: algo a mais do que uma simples linha no currículo.

Não posso negar que uma das maiores expectativas que tive logo ao entrar na ESALQ era realizar parte de meus estudos fora do país. Na verdade, esta experiência soava como algo impreterível à minha carreira: uma espécie de diferencial à minha carreira profissional. Eu a via mais como um plus na formação curricular do que propriamente os frutos que colheria desta experiência. Por isso, sempre busquei editais abertos ou qualquer outra oportunidade de viagem ao exterior.

Confesso que estudar fora, infelizmente, não é um processo fácil. Tal dificuldade não advém do mérito acadêmico que se exige ou bem como à proficiência de línguas pedida. Creio que estes são os problemas mais fáceis de serem superados. A maior dificuldade para mim, sem dúvida alguma, foi lidar com a burocracia de todo esse processo. Por mais que a universidade se proponha a enviar seus alunos a outros países, ela infelizmente ainda não está totalmente preparada para isso. Era como se o corpo não correspondesse aos anseios da mente.

Superada às dificuldades após um longo processo de seleção que exigiu vigília e muita paciência, fui aprovado para, durante o 1° semestre de 2013, estudar na “Universitat de les Illes Balears”, em Palma de Mallorca, Espanha. Para aquele que é aprovado em qualquer edital, a sensação de felicidade e realização é igual, senão maior, do que ser aprovado no vestibular.

O êxtase somava-se à insegurança que emanava desta viagem. A ideia de ser um desconhecido e de estar completamente sozinho me despertou certo medo; medo que nunca antes havia sentido. No entanto, este receio se transformou no mais belo ensinamento, onde percebi que ali teria uma cidade, um país e um continente inteiro a ser descoberto; um local onde por ser exatamente um desconhecido eu me enchia de coragem e liberdade necessária para conhecer e vivenciar tudo aquilo que gostaria. Estava disposto a ser, como diria Charles Baudelaire, um verdadeiro “flâneur”: matriculei-me em aulas de espanhol e de cinema, bem como realizava passeios diários na cidade histórica, com o simples intuito de conhecer pessoas e vielas escuras. Estava livre para traçar, sobre os trilhos de minha intuição e do meu bom senso, um caminho autêntico.

Passada a ansiedade inicial pude, aos poucos, conhecer todos os intercambistas. Éramos um total de 120 alunos, onde somente 3 deles eram brasileiros. Isto me proporcionou um contato ímpar com diferentes culturas. Talvez soe a quem está de fora algo já banal sobre os benefícios de se fazer um intercâmbio. No entanto, somente quando se está dentro é que se pode contemplar os benefícios que se obtém com esta variedade cultural. Ora, se os limites do nosso conhecimento são os limites do mundo, é quando conhecemos outras identidades culturais que se valoriza o que sabemos, bem como percebemos como sabemos tão pouco. Particularmente, como estudante de economia, ter vivido na Espanha durante a grave recessão econômica que atingia o país foi algo de grande valor para a minha formação pessoal.

Com o fim dos 6 meses, que passaram mais rápido do que uma aula de cálculo, pude perceber que o grande valor de um intercâmbio vai além do que imaginei: não é simplesmente uma linha adicional ao nosso currículo, mas é um ponto crucial na vida de um estudante. É a partir dele que nos compreendemos melhor, que entendemos um pouco mais quem realmente somos, pelo que nos interessamos e qual a nossa posição neste mundo. Creio que qualquer um que aprender essas coisas não se contenta mais em saber o que já sabe; em viver na mesma rua; em estudar na mesma sala e com os mesmos professores. O intercâmbio, inevitavelmente, desperta o desejo do saber e do conhecer, que são, assim como a vida, infinitos.

Ao regressar à Piracicaba sentia enorme desejo em dar continuidade à busca de novas experiências. Através do Prof. Bacha do departamento de Economia da ESALQ, eu entrei em contato com o Prof. Werner Baer, da “University of Illinois at Urbana-Champaign”. Tínhamos uma linha de pesquisa similar, por isso perguntei-lhe se poderia terminar o meu TCC com ele nos EUA. É nesses casos que, por mais que a burocracia e o despreparo possam dificultar a realização de nossos desejos, a simpatia e a hospitalidade de alguns superam estes problemas. Com isso, no início de Agosto embarquei com destino aos EUA, onde, além de concluir o meu TCC, pude apresenta-lo a um grupo de 30 alunos e realizar algumas aulas sobre temas que quero estudar em meu mestrado.

Sou muito grato a essas oportunidades que tive durante a minha graduação, bem como às possíveis viagens que terei em breve. Porém, sei muito bem que nada disso teria ocorrido se muito tempo não fosse gasto na elaboração de documentos, na leitura de editais e em ouvir muitos “nãos”. Apesar de tudo, o trabalho que isto exige de um estudante é recompensado com o enorme aprendizado e com os amigos que se faz em uma viagem como essas. São coisas que nunca esquecemos, e que nos faz crescer como verdadeiros homens e mulheres. É como se em meio a um deserto de incerteza e insegurança nascesse uma flor de esperança, indicando o caminho da plenitude.

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Grupo de intercambistas.

 

Pedro Frizo (Frigobar) – Formado em Economia pela ESALQ (2013).

Vestibular: bloqueio desleal

“A educação, direito de todos e dever do Estado (…)”, assegura a Constituição de 1988 (Cap. III; Art. 205), no entanto, galgar este “direito” a nível superior de ensino nunca foi uma tarefa simples, principalmente para as camadas de menor poder aquisitivo.

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                  Para usufruir de este almejado DEVER impõe-se mais uma barreira –o vestibular. O qual seleciona, por critérios questionáveis, indivíduos mais aptos, porém, desconsiderando a carreira mínima de 11 anos de formação do candidato em detrimento de um único dia, o da aplicação do exame.

                  Esta forma de seleção demonstra em números sua ineficiência, tendo em vista que no ano de 2013 uma vaga para a carreira médica foi disputada por 200 candidatos (apenas na UNESP) enquanto que no mesmo ano o país viu-se obrigado a importar estes profissionais de Cuba. O aparente paradoxo é, na realidade, a prova do objetivo deste mecanismo. O qual, ao contrário do que se pensa, é bloquear o acesso à universidade e não viabiliza-lo.

                  Com o objetivo de mitigar este bloqueio desleal entrou em vigor em 2012 a chamada “Lei de cotas”, a qual reserva 50% das matrículas para estudantes oriundos da rede pública de ensino, além de levar em consideração o percentual mínimo correspondente à soma de pretos, pardos e indígenas no Estado de acordo com o último censo realizado pelo IBGE, atualmente de 51,1% dos brasileiros (sendo: 7,6% pretos; 43,1% pardos e 0,4% indígenas).

                  Mais uma prova da diferença entre o discurso e da atuação. Qualquer um que tenha estado em alguma universidade pública, desde a execução da lei, notou que estas etnias não representavam nem de longe a metade de seu corpo discente.

                  A caminhada até a inspiradora lei é árdua, extensa e é indispensável incluir ao roteiro a ampliação do corpo docente que se autodeclare destas camadas historicamente marginalizadas. Entretanto, a mera existência de uma legislação é de louvável parecer, tendo em vista o caráter segregacional das universidades desde sua fundação no Brasil, em 1808.

Leticia Ferreira (Avante)

Divergência de opiniões ou intolerância?

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            Diante de “debates” repetitivos e cansativos que ocorrem todos os anos, principalmente em época de novos ingressantes, me deparo com algo muito maior do que apenas o conflito de opiniões: a Intolerância. Para iniciar, cito Voltaire: “A primeira lei da natureza é a tolerância, já que temos erros e fraquezas”. Porém, continuo meus pensamentos dizendo que nem todos acreditam na validade de tal conceito e, apesar de teorias como essa, o mundo continua intolerante como fora durante toda a história, utilizando como artifício a força bruta para validar os pontos de vista que ele considera os mais corretos.

            Todos sabemos que qualquer situação possui mais de um ponto de vista, e que estes nem sempre são compatíveis uns com os outros, o que não deixa de ser natural e comum na sociedade em que vivemos. O problema começa a surgir quando as pessoas que possuem um ponto de vista passam a não respeitar os que discordam do mesmo.

            Através de situações como estas, percebemos que o homem passou a crer que existe um único olhar para as diversas situações que a vida nos apresenta. Graças a isso, manchetes de intolerância religiosa, sexual, ou étnica, ganham cada vez mais espaço na mídia atual. Sendo que por meio de atitudes – físicas ou verbais – violentas, os intolerantes tentam inibir, de todas as maneiras, a manifestação daquilo que não condiz com o que acreditam.

            Entretanto, não considerar um determinado ato ou ponto de vista o mais correto, é aprovável, desde que, do mesmo modo que possuímos nossa liberdade, não infrinjamos a liberdade alheia. A intolerância tornou-se sinônimo de ignorância, pois demonstra a falta de capacidade de viver em uma sociedade variada, sendo que é essa variedade que deixa nossa sociedade mais viva e mais interessante.

            Não digo que temos que aceitar e concordar com todas as atitudes que não condizem com a nossa índole. Digo apenas que devemos antes de tudo respeitar a liberdade de expressão e de escolha que todo homem possui, expressando a nossa própria opinião, mas nunca querendo que o outro pense do mesmo modo que você.

            Concluo minhas ideias dizendo que o filósofo francês citado anteriormente estava certo: “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la”.

Patrícia Santo André (ABC) – Ciências dos Alimentos

Bem-vindos à ESALQ!

Parabéns bixada, e bem-vindos aos melhores anos de suas vidas! Aqui vão alguns conselhos para vocês se darem bem na vida esalqueana:

– NÃO alugue apartamento logo na matrícula. Até o dia 13 de maio há o sistema de “estágio” em repúblicas na ESALQ, no qual o bixo pode ficar até o 13 de maio sem PAGAR NADA e pode mudar de república livremente, quando quiser. Aproveite essa oportunidade!

– Conheça as diferentes repúblicas da ESALQ, com certeza terá uma do seu estilo. Na ESALQ temos das repúblicas mais tranquilas as mais agitadas, com os mais distintos pontos de vista e ideologias. Visite-as e tenha em mente que a escolha é sua. Não se apegue ao que certa pessoa disse sobre alguma república, evitando assim que outros tirem as conclusões por você.

– Crie suas opiniões sobre tudo, na ESALQ temos diversos tipos de pensamento e opiniões sobre os mais variados temas, desde aborto até o agronegócio. O importante é respeitar opiniões divergentes e aceitar que o mundo não vai ser à sua imagem e semelhança.

– Participe dos diversos órgãos de representação estudantil, como o Centro Acadêmico “Luiz de Queiroz” (CALQ), a Associação Atlética Acadêmica “Luiz de Queiroz“ (AAALQ), os Centros Acadêmicos de cada curso, o Conselho de Repúblicas, as atividades de Representantes Discentes (RD’s). Tais experiências são importantes para o crescimento pessoal e profissional, constituindo num diferencial no mercado de trabalho e, principalmente, na sua própria atitude e pró-atividade como pessoa.

– Ao longo da graduação, aproveite os grupos de extensão/estágios das diversas áreas, eles mostram na prática o conteúdo aprendido em sala de aula e podem acabar dando um rumo no seu futuro profissional. Na ESALQ há grupos de estudos de campo, administração, laboratório… Se informe e procure conversar com pessoas que participantes para ver qual tem a sua cara. Para saber mais, visite http://www.esalq.usp.br/svcex/grupos.php

– Conheça seus veteranos e colegas! Na Escola você terá oportunidade de fazer amizades que acompanharão o resto de suas vidas, então deixe a vergonha de lado e procure conversar e conviver com todos. E claro, não perca as festas e eventos da Gloriosa. Pode ter certeza que vão ser os momentos mais animais da sua vida!

Carlos Venturini (T´-viz)

Sobre o vestibular e a imposição de um novo estilo de vida…

            De maneira a contribuir com a reflexão que temos feito sobre o ensino superior e, sobretudo, sobre o INGRESSO nas universidades públicas brasileiras, me desafio a escrever esse texto, em que tentarei trazer algumas reflexões construídas ao longo desses últimos anos de vivência e contato com a realidade de inúmer@s jovens que ousam vencer a barreira do vestibular para garantirem um direito.Vale lembrar que não é minha pretensão esgotar o debate e possibilidades acerca do tema.

            Nos últimos três anos atuei como professor em um cursinho de Piracicaba, cursinho esse freqüentado principalmente por estudantes oriundos daquilo que chamamos de classe média/baixa, que em sua grande maioria tiveram sua (de)formação  em escolas públicas com inúmeros problemas estruturais e pedagógicos, pré vestibulandos, que juntamente ao grupo de estudantes vindos do ensino privado não enxergaram ao longo de toda a sua vida  algum sentido sequer em se sentarem em salas de aulas. Nesses três anos pude notar que a cobrança para  passar pelo processo seletivo impõe aos estudantes pós ensino médio, um novo estilo de vida para vencer o vestibular, sendo necessário sacrificar as nossas potencialidades por um determinado período de tempo.

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            Façamos um esforço em nossa memória e nos coloquemos novamente no lugar de um estudante que recém saiu do ensino médio. É uma etapa de nossas vidas em que existe uma cobrança externa e interna muito grande, de repente somos obrigados a escolher uma “profissão” que aparentemente nos definirá pelo resto de nossas vidas. 

            Essa escolha não é nada fácil, uma vez que já vivemos um pouquinho e lá no fundo já aprendemos que somos seres inacabados em constante formação, em constante mutação. Definir-se assim sem muito conhecer sobre a realidade dos cursos e universidades é uma árdua tarefa, que piora ainda mais quando a família se mostra um personagem que ao invés de apoiar e acompanhar passa a atrapalhar, interferindo nessa decisão de maneira desastrosa, muitas vezes inclusive dando prioridade para profissões de acordo com seu “prestígio” e benefícios financeiros. Após decidido/a ou ainda em indecisão começa a maratona de estudos; serão em torno de 9 meses pra decorar todo o conteúdo do ensino médio, aprender como escrever uma redação nos moldes do vestibular e se decidir, caso ainda não o tenha feito, será um momento em que de certa forma a vida irá parar.  

               Deixaremos de explorar nossas capacidades artísticas, sairemos menos e apesar de todo foco e determinação muitas das vezes não sentiremos a felicidade de maneira constante, porque dificilmente conseguiremos estar presentes de corpo e alma nos momentos de ócio e lazer. O fantasma do vestibular nos assombrará por todos os dias e noites, inclusive durante o período anterior à divulgação dos resultados.

            Durante o ano o ritmo tem que acelerar e manter-se, a cada dia que passa a responsabilidade aumenta, assim como também aumentam as fórmulas, datas, regras, normas, nomes e momentos históricos para serem guardados.
A pulga parece estar se multiplicando por detrás das duas orelhas.
O que mais me chateia ao conversar com os pré-vestibulandos é notar que eles/as praticamente nunca se divertem ao longo desse período.

            Imaginemos que você esteja prestando um curso bastante concorrido, você sabe que pra conseguir passar sua nota terá que ser altíssima. Para que isso seja atingido você deve estar com todo o conteúdo na ponta da língua, ter um bom controle do tempo para a realização da prova, e não deixar que algum sentimento “bobo” te incomode durante o(s) dia(s) de prova.

            A maioria dos estudantes deixa de buscar momentos de lazer de maneira a não dar margem para comentários futuros como: “Bem, ele não passou pois não deixou de ir nas festas com os amigos, não se deu por inteiro”. Isso intensifica uma auto cobrança prejudicial para o processo desse estudante, de forma que o que mais ouço dizer deles/as é que quando vão para algum momento de lazer, um churrasco, por exemplo, durante praticamente todo o tempo em que deveriam estar se divertindo estão na verdade pensando em uma prova no final do ano, deixando de apreciar os momentos que fazem a vida valer a pena, já que naquele momento talvez possa estar comprometendo todo o esforço até então. Viver uma vida regida pela lógica do vestibular é perder um precioso tempo da vida de exploração das potencialidades humanas, como já citado anteriormente, somos seres inacabados, em constante formação (Paulo Freire).

            Para que essa “formação” se dê de maneira plena e saudável é necessário termos tempo adequado para nos sentirmos, tempo para desenvolvermos habilidades artísticas, tempo para que possamos nos conhecer e nos entendermos e não esse “não tempo” para o amor, que em nossa sociedade infelizmente não nos é proporcionado somente pelo vestibular.

            É necessário revolucionarmos todo o nosso sistema educacional, para além das mudanças no vestibular, de fato, acredito que tivemos avanços como a adoção das cotas, mesmo que ainda seja necessário avançarmos na concretização das cotas raciais, com a ampliação das vagas e o SISU, a entrada nas universidades federais ficou “menos difícil” e propiciou uma nova conformação no corpo discente das universidades, trazendo mais diversidade de pensamentos, comportamentos e, o mais importante, diversidade de realidades.

            O espaço “público” das universidades públicas brasileiras continua sendo “privado” para grande parte da população menos abastada. Na ESALQ por exemplo, quase 70% d@s ingressantes de 2013 estudaram em escolas particulares durante o ensino médio. Políticas afirmativas se fazem necessárias para que a universidade seja ocupada por grupos que ainda não se beneficiam desse direito, que no Brasil é um privilégio. Em minha opinião o vestibular é um mecanismo para barrar a entrada das pessoas nas universidades, e claro, não de todas as pessoas, mais do que isso, o vestibular já nos molda para o modelo de universidade que não priorizará o desenvolvimento de um senso crítico, não promoverá grandes reflexões e nos empurrará para uma lógica especialista que mais uma vez, não explorará nossas potencialidades humanas.


“Ei, irmão, nunca se esqueça
Na guarda, guerreiro, levanta a cabeça, truta
Onde estiver, seja lá como for
Tenha fé, porque até no lixão nasce flor” – Racionais MC’s Vida Loka PT.1

José (Massakreixo)

Defender índios ou agricultores pobres?

A onda do momento, embora alguns digam o oposto, não se trata dos “rolezinhos”. A onda do momento – que, aliás, já vem sendo assim há algum tempo – são os “movimentos sociais”. Apesar do fim em si aparentemente idôneo, os movimentos sociais servem mais para defender e trabalhar por militantes profissionais do que defender o “povo” real, aquele que trabalha e tenta ao menos chegar ao fim de cada dia, apesar de toda a “boa vontade” alheia. De “social” tais movimentos só possuem o nome.

Movimentos, apoiados por ONGs usurpadas por militantes, são os principais causadores da expulsão de 6 mil camponeses pobres e analfabetos de suas casas no Maranhão dos Sarney. Tal assunto só não foi coberto pela imprensa porque começou a ocorrer ao mesmo tempo em que os esquartejamentos prisionais começaram a pipocar. A Capitania Hereditária Sarneyzista vai muito além de problemas carcerários. Mas, isso a Globo não mostra: não quer se indispor com a Rede Mirante, retransmissora do canal no Maranhão e, quem diria, de propriedade de Sarney.

A expulsão ocorreu sobre o pretexto de dar mais terras aos índios, desta vez aos da etnia awá-guajá. Segundo o Incra/Funai e tantos órgãos tomados pela antropologia fuleira, os 13% do território total do Brasil não são suficientes aos pouco menos de 800 mil índios no país. Isso quando os mais de 200 milhões de brasileiros habitam apenas 11% do mesmo território nacional.  Já parece exagero, mas para alguns “indigenistas” é pouco. Paulo Maldos já declarou a interlocutores que os índios devem ter no mínimo 25% do território brasileiro à sua disposição. Mas, quem é Paulo Maldos? Sendo o Secretário de Articulação Social da Secretaria-Geral da Presidência, obviamente, não se trata de um zé-ninguém.

Paulo Maldos, utilizando da articulação mais rasteira – isso sendo Secretario de Articulação Social – disse que os tais agricultores maranhenses plantavam maconha e praticavam extração ilegal de madeira em suas terras e, assim, podiam ser despejados. Provadas a mentira e a difamação, desculpou-se. Mas, continua insuflando o confronto entre índios e agricultores, muitas vezes pobres, em todos os recantos do país. Os agricultores expulsos no Maranhão são simples e não se enquadram na caricatura de latifundiários. São trabalhadores que tentam cuidar de suas plantações honestas, apesar de Paulo Maldos. Entretanto, os índios são mais importantes. Interessante que o “awá” de “awá-guajá” signifique “gente”. Para o Rousseau da Secretaria-Geral e os movimentos sociais e ONGs por trás desse despejo, os agricultores não são pessoas. Não são “awá” para serem dignos de terra e teto.

Os movimentos sociais ligados à questão indígena querem é expulsar gente de suas terras e entregá-las aos índios. Depois, não se interessam mais. Índio com reserva indígena garantida é índio sem utilidade política. Não dá para fazer proselitismo político-social com índio bem acomodado. Aliás, não são apenas tais agrupamentos que se esquecem dos índios. O governo também faz vista grossa para eles, não apenas deixando de prover assistência social, mas deixando que façam o que quiserem – tornam-se acima das leis. Como esquecer de índios tenharins cobrando pedágio de caminhoneiros que passavam pela Transamazônica, uma rodovia federal?

Apesar de muitas terras, depois de serem entregues aos índios, apresentarem sinais de que foram tomadas, quase em sua totalidade, pelo garimpo e por retirada e comércio ilegais de madeira, os “indigenistas” profissionais querem mais. Até desocupam e desabrigam agricultores pobres para isso.

Em outros momentos, em outras reivindicações de terras, o argumento de que se trata de latifúndios exploradores até chegava a iludir certos grupos. E, agora, em se tratando de agricultores pobres e analfabetos, quem defende a causa indigenista sem se contradizer?

Assistam: http://www.youtube.com/watch?v=4Z7eqQFY8LQ&hd=1

Felipe Vitti (Virge)