Sobre o vestibular e a imposição de um novo estilo de vida…

            De maneira a contribuir com a reflexão que temos feito sobre o ensino superior e, sobretudo, sobre o INGRESSO nas universidades públicas brasileiras, me desafio a escrever esse texto, em que tentarei trazer algumas reflexões construídas ao longo desses últimos anos de vivência e contato com a realidade de inúmer@s jovens que ousam vencer a barreira do vestibular para garantirem um direito.Vale lembrar que não é minha pretensão esgotar o debate e possibilidades acerca do tema.

            Nos últimos três anos atuei como professor em um cursinho de Piracicaba, cursinho esse freqüentado principalmente por estudantes oriundos daquilo que chamamos de classe média/baixa, que em sua grande maioria tiveram sua (de)formação  em escolas públicas com inúmeros problemas estruturais e pedagógicos, pré vestibulandos, que juntamente ao grupo de estudantes vindos do ensino privado não enxergaram ao longo de toda a sua vida  algum sentido sequer em se sentarem em salas de aulas. Nesses três anos pude notar que a cobrança para  passar pelo processo seletivo impõe aos estudantes pós ensino médio, um novo estilo de vida para vencer o vestibular, sendo necessário sacrificar as nossas potencialidades por um determinado período de tempo.

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            Façamos um esforço em nossa memória e nos coloquemos novamente no lugar de um estudante que recém saiu do ensino médio. É uma etapa de nossas vidas em que existe uma cobrança externa e interna muito grande, de repente somos obrigados a escolher uma “profissão” que aparentemente nos definirá pelo resto de nossas vidas. 

            Essa escolha não é nada fácil, uma vez que já vivemos um pouquinho e lá no fundo já aprendemos que somos seres inacabados em constante formação, em constante mutação. Definir-se assim sem muito conhecer sobre a realidade dos cursos e universidades é uma árdua tarefa, que piora ainda mais quando a família se mostra um personagem que ao invés de apoiar e acompanhar passa a atrapalhar, interferindo nessa decisão de maneira desastrosa, muitas vezes inclusive dando prioridade para profissões de acordo com seu “prestígio” e benefícios financeiros. Após decidido/a ou ainda em indecisão começa a maratona de estudos; serão em torno de 9 meses pra decorar todo o conteúdo do ensino médio, aprender como escrever uma redação nos moldes do vestibular e se decidir, caso ainda não o tenha feito, será um momento em que de certa forma a vida irá parar.  

               Deixaremos de explorar nossas capacidades artísticas, sairemos menos e apesar de todo foco e determinação muitas das vezes não sentiremos a felicidade de maneira constante, porque dificilmente conseguiremos estar presentes de corpo e alma nos momentos de ócio e lazer. O fantasma do vestibular nos assombrará por todos os dias e noites, inclusive durante o período anterior à divulgação dos resultados.

            Durante o ano o ritmo tem que acelerar e manter-se, a cada dia que passa a responsabilidade aumenta, assim como também aumentam as fórmulas, datas, regras, normas, nomes e momentos históricos para serem guardados.
A pulga parece estar se multiplicando por detrás das duas orelhas.
O que mais me chateia ao conversar com os pré-vestibulandos é notar que eles/as praticamente nunca se divertem ao longo desse período.

            Imaginemos que você esteja prestando um curso bastante concorrido, você sabe que pra conseguir passar sua nota terá que ser altíssima. Para que isso seja atingido você deve estar com todo o conteúdo na ponta da língua, ter um bom controle do tempo para a realização da prova, e não deixar que algum sentimento “bobo” te incomode durante o(s) dia(s) de prova.

            A maioria dos estudantes deixa de buscar momentos de lazer de maneira a não dar margem para comentários futuros como: “Bem, ele não passou pois não deixou de ir nas festas com os amigos, não se deu por inteiro”. Isso intensifica uma auto cobrança prejudicial para o processo desse estudante, de forma que o que mais ouço dizer deles/as é que quando vão para algum momento de lazer, um churrasco, por exemplo, durante praticamente todo o tempo em que deveriam estar se divertindo estão na verdade pensando em uma prova no final do ano, deixando de apreciar os momentos que fazem a vida valer a pena, já que naquele momento talvez possa estar comprometendo todo o esforço até então. Viver uma vida regida pela lógica do vestibular é perder um precioso tempo da vida de exploração das potencialidades humanas, como já citado anteriormente, somos seres inacabados, em constante formação (Paulo Freire).

            Para que essa “formação” se dê de maneira plena e saudável é necessário termos tempo adequado para nos sentirmos, tempo para desenvolvermos habilidades artísticas, tempo para que possamos nos conhecer e nos entendermos e não esse “não tempo” para o amor, que em nossa sociedade infelizmente não nos é proporcionado somente pelo vestibular.

            É necessário revolucionarmos todo o nosso sistema educacional, para além das mudanças no vestibular, de fato, acredito que tivemos avanços como a adoção das cotas, mesmo que ainda seja necessário avançarmos na concretização das cotas raciais, com a ampliação das vagas e o SISU, a entrada nas universidades federais ficou “menos difícil” e propiciou uma nova conformação no corpo discente das universidades, trazendo mais diversidade de pensamentos, comportamentos e, o mais importante, diversidade de realidades.

            O espaço “público” das universidades públicas brasileiras continua sendo “privado” para grande parte da população menos abastada. Na ESALQ por exemplo, quase 70% d@s ingressantes de 2013 estudaram em escolas particulares durante o ensino médio. Políticas afirmativas se fazem necessárias para que a universidade seja ocupada por grupos que ainda não se beneficiam desse direito, que no Brasil é um privilégio. Em minha opinião o vestibular é um mecanismo para barrar a entrada das pessoas nas universidades, e claro, não de todas as pessoas, mais do que isso, o vestibular já nos molda para o modelo de universidade que não priorizará o desenvolvimento de um senso crítico, não promoverá grandes reflexões e nos empurrará para uma lógica especialista que mais uma vez, não explorará nossas potencialidades humanas.


“Ei, irmão, nunca se esqueça
Na guarda, guerreiro, levanta a cabeça, truta
Onde estiver, seja lá como for
Tenha fé, porque até no lixão nasce flor” – Racionais MC’s Vida Loka PT.1

José (Massakreixo)

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Defender índios ou agricultores pobres?

A onda do momento, embora alguns digam o oposto, não se trata dos “rolezinhos”. A onda do momento – que, aliás, já vem sendo assim há algum tempo – são os “movimentos sociais”. Apesar do fim em si aparentemente idôneo, os movimentos sociais servem mais para defender e trabalhar por militantes profissionais do que defender o “povo” real, aquele que trabalha e tenta ao menos chegar ao fim de cada dia, apesar de toda a “boa vontade” alheia. De “social” tais movimentos só possuem o nome.

Movimentos, apoiados por ONGs usurpadas por militantes, são os principais causadores da expulsão de 6 mil camponeses pobres e analfabetos de suas casas no Maranhão dos Sarney. Tal assunto só não foi coberto pela imprensa porque começou a ocorrer ao mesmo tempo em que os esquartejamentos prisionais começaram a pipocar. A Capitania Hereditária Sarneyzista vai muito além de problemas carcerários. Mas, isso a Globo não mostra: não quer se indispor com a Rede Mirante, retransmissora do canal no Maranhão e, quem diria, de propriedade de Sarney.

A expulsão ocorreu sobre o pretexto de dar mais terras aos índios, desta vez aos da etnia awá-guajá. Segundo o Incra/Funai e tantos órgãos tomados pela antropologia fuleira, os 13% do território total do Brasil não são suficientes aos pouco menos de 800 mil índios no país. Isso quando os mais de 200 milhões de brasileiros habitam apenas 11% do mesmo território nacional.  Já parece exagero, mas para alguns “indigenistas” é pouco. Paulo Maldos já declarou a interlocutores que os índios devem ter no mínimo 25% do território brasileiro à sua disposição. Mas, quem é Paulo Maldos? Sendo o Secretário de Articulação Social da Secretaria-Geral da Presidência, obviamente, não se trata de um zé-ninguém.

Paulo Maldos, utilizando da articulação mais rasteira – isso sendo Secretario de Articulação Social – disse que os tais agricultores maranhenses plantavam maconha e praticavam extração ilegal de madeira em suas terras e, assim, podiam ser despejados. Provadas a mentira e a difamação, desculpou-se. Mas, continua insuflando o confronto entre índios e agricultores, muitas vezes pobres, em todos os recantos do país. Os agricultores expulsos no Maranhão são simples e não se enquadram na caricatura de latifundiários. São trabalhadores que tentam cuidar de suas plantações honestas, apesar de Paulo Maldos. Entretanto, os índios são mais importantes. Interessante que o “awá” de “awá-guajá” signifique “gente”. Para o Rousseau da Secretaria-Geral e os movimentos sociais e ONGs por trás desse despejo, os agricultores não são pessoas. Não são “awá” para serem dignos de terra e teto.

Os movimentos sociais ligados à questão indígena querem é expulsar gente de suas terras e entregá-las aos índios. Depois, não se interessam mais. Índio com reserva indígena garantida é índio sem utilidade política. Não dá para fazer proselitismo político-social com índio bem acomodado. Aliás, não são apenas tais agrupamentos que se esquecem dos índios. O governo também faz vista grossa para eles, não apenas deixando de prover assistência social, mas deixando que façam o que quiserem – tornam-se acima das leis. Como esquecer de índios tenharins cobrando pedágio de caminhoneiros que passavam pela Transamazônica, uma rodovia federal?

Apesar de muitas terras, depois de serem entregues aos índios, apresentarem sinais de que foram tomadas, quase em sua totalidade, pelo garimpo e por retirada e comércio ilegais de madeira, os “indigenistas” profissionais querem mais. Até desocupam e desabrigam agricultores pobres para isso.

Em outros momentos, em outras reivindicações de terras, o argumento de que se trata de latifúndios exploradores até chegava a iludir certos grupos. E, agora, em se tratando de agricultores pobres e analfabetos, quem defende a causa indigenista sem se contradizer?

Assistam: http://www.youtube.com/watch?v=4Z7eqQFY8LQ&hd=1

Felipe Vitti (Virge)